Como lidar com a morte?

Comecei avisando minha noiva “Amor, não sei como te falar isso, é triste. Minha vó não vai mais no nosso casamento.” Depois avisei o pessoal do trabalho que viajaria no final de semana para o velório e sepultamento dela. “Esse é o momento de ficar com a família”, disse meu coordenador.

A viagem, diferente das outras, não me deu sono, nem lembro de ter bocejado. Um irmão da igreja decidiu ir conosco, passamos o tempo em piadas, histórias e charadas.

Mãezinha soube quando, recém-operada, se recuperava da cirurgia no ombro, estando ainda no hospital. De onde tirou forças pra viajar? Eu não sei. Em meio a gemidos e em uma dor latejante, chegamos à igreja.

Abraços de consolação e conforto e lágrimas foram só tentativas para amenizar uma dor que parecia ser insuportável. Ao mesmo tempo que a tristeza se fazia palpável, não a senti como os outros. Sentia paz. Sabia que minha vó estava bem melhor que todos nós.

Quando o pastor deu oportunidade para que os familiares falassem, senti vontade. Mas não tive coragem. Meu tio, aquele que sempre é chamado pra fazer o discurso de natal e páscoa, nem sabia como começar. E como podia saber? Ela estava bem em frente e não estava mais.

Hoje, faço este simples discurso.

“O peregrino, ao ver o rio da morte, encheu-se de medo. Era o único jeito de entrar no Maravilhoso País e os únicos que não passaram por aquele rio foram Enoque e Elias. Somente depois de passar pelo rio da morte ele pôde se encontrar face a face com o Autor da vida, Jesus Cristo.¹

 

Foi exatamente isso o que minha vózinha fez. Ela agora contempla a glória da face do Criador e não sente nenhuma das dores e enfermidades pelas quais vinha passando nesses últimos meses.

 

Me lembro de coisas que parecem tão triviais e que, na verdade, são as mais importantes. Lembro da vez que ela foi passar um tempo em nossa casa e, sem querer, sentou no meu trabalho da escola que eu precisava entregar no dia seguinte. Tive que dizer à professora, enquanto entregava as folhas amassadas ‘desculpa, minha vó sentou em cima do trabalho’.

 

Quando eu vinha para a casa dela, não via a hora de comer o arroz e o feijão dela. Era bom demais. Não sei como fazia ser tão bom. E também tinha aquele pote cheio de suspiro. Eu acabava com aquele pote. Aquilo era gostoso demais também. Ela fazia questão de comprar de novo. Só que, às vezes, eu exagerava e ela, cheia de razão, tinha que me dar uma bronca.

 

Nos feriados em que a família se reunia, a primarada dormia tudo na sala, nos colchões e no sofá. Toda a noite, ela vinha pra sala e sempre dizia ‘Boa noite pra vocês, Deus abençoe’ e todo mundo respondia ao mesmo tempo, numa mistura de carinho e bagunça. Isso acontecia quando a gente era criança, adolescente.

 

Fazia muito tempo que a gente não conseguia se reunir. No último natal, conseguimos o que parecia ser essa façanha que o tempo não permitia mais, todo mundo reunido na sala. Ela veio, já mais delicada e frágil, com aquele mesmo olhar que sempre nos tinha e disse ‘Boa noite pra vocês, Deus abençoe’ e como se fosse do mesmo jeito, respondemos todos juntos. Dessa vez, ela ficou mais alguns segundos nos olhando, todos já crescidos, alguns casados, com filhos, outros barbudos – no meu caso. Ela viu todos aqueles netos reunidos como se os anos não tivessem passado. Seu olhar tão meigo me mostrou a gratidão de rever todos juntos uma última vez.

 

Não há como dizer para que não hajam lágrimas. Nem todas as lágrimas são ruins.² Essa tristeza nos inunda e parece que nunca mais vai embora. Mas não se preocupem. Temos o Consolador dentro de nós.

 

Imagino se, no céu, ela estivesse olhando pra gente e pensasse ‘Por que eles estão desse jeito? Eu estou tão feliz’ e Jesus vem e lhe diz ‘Até parece que você se esqueceu que existe tristeza. Estão chorando por você.’ ‘Mas não deveriam, estou mais do que melhor agora e logo eles estarão aqui também, todo mundo junto, Te servindo e Te adorando.’

 

Muito em breve estaremos com ela também, contemplando e adorando Aquele que venceu a morte. Essa coisa chamada morte é dolorida demais. Porém nosso Jesus já a venceu e nos concedeu vitória sobre ela. Muito em breve estaremos todos juntos.”

Quando eu voltar pra casa, ainda com o coração um pouco dolorido, vou dizer a minha noiva, tentando mostrar um terno sorriso “Amor, eu queria que você conhecesse minha vózinha, mas vai demorar um pouco mais pra isso acontecer.”

Em homenagem à Irene Maronezi, minha querida avó.
Natanael Melo

¹ – John Bunyan, O Peregrino: a viagem do cristão à cidade celestial.
² – escrito do personagem Gandalf, criado por J.R.R. Tolkien.